[Estamos] diante de um autor que assume uma visão pouco lírica da poesia, mais preocupado com as raízes, cheias de terra, do real do que com as flores perfeitas da retórica. «Nada é poético na poesia», diz-se algures neste belo e magoado livro, mas a verdade não é tão simples, porque mesmo nos textos mais duros e desolados, mesmo nos versos com arestas cortantes, o lirismo irrompe, às vezes apenas no contorno de uma imagem surpreendente («dentro de nós, como dentro da música, / rugia o temporal de neve e ferro / que se desata quando a história passa a página») ou na justeza de versos como estes: «Ser velho é a guerra já ter acabado. / Saber onde estão os refúgios, agora inúteis.»
Da recensão crítica de José Mário Silva para o suplemento Actual, do Expresso, reproduzida no Bibliotecário de Babel.
A beleza e a gentileza de sentimentos não têm de seguir a par. Há verdades que, de tão brutais, irradiam uma luz que atrai como um vislumbre do abismo. Casa da Misericórdia […] tem este género de iridiscência: ganhou o Prémio Nacional de Poesia em Espanha sem cantar amores eufóricos ou luzes redentoras. Fala de coisas irremediáveis […] um livro brilhante que encontra as palavras do mais íntimo dos silêncios.
Da recensão crítica de Maria João Martins.